Mergulhando nos corais e naufrágios do Mar Vermelho

Viviane Kunisawa*


Desde que comecei a mergulhar, ir para o Egito e conhecer os encantos do Mar Vermelho estava nos meus planos. A oportunidade surgiu quando uma querida amiga me chamou para uma viagem organizada pela Coral de Fogo, tendo como um dos guias o Maurício Carvalho, que já conhecia, pois foi meu instrutor no curso de especialidade de mergulho em naufrágios.

A expectativa era grande, pois o famoso SS Thistlegorm, navio inglês bombardeado durante a Segunda Guerra Mundial pela força aérea alemã, estava no roteiro de “naufrágios e recifes” que o live aboard faria, saindo da cidade de Hurghada. Éramos um grupo de 21 brasileiros para fazer a festa nas águas do Mar Vermelho a bordo do Emperor Superior. No barco, também havia dois mergulhadores da Polônia e uma mergulhadora belga.


Os primeiros mergulhos foram em recifes (Fanous Rast e Poseidon Garden) e em The Barge, um naufrágio bastante desmantelado (pouco se vê de sua estrutura), mas com vida riquíssima. Mas logo em seguida, para matar a ansiedade, já mergulhamos no Thistlegorm. E ele é tudo o que imaginava! Um senhor naufrágio, em que pudemos penetrar e ver toda a carga que carregava, entre armas, caminhões e motocicletas, além de vagões de trem que se encontravam na parte externa.

Alguns amigos haviam relatado ter enfrentado uma forte correnteza ao mergulhar neste naufrágio, mas demos sorte e não havia praticamente nenhuma – o que permitiu que fizéssemos um mergulho noturno lá. E ele não deixou de oferecer o seu melhor: um cardume de peixes enxada, um polvo bem grande, peixes leão “sassaricando” por conta da luz das lanternas. Como não gosto muito de mergulhos noturnos, quase não fui neste, mas a minha amiga me convenceu de que se tratava de uma oportunidade única e ela estava certa.

E não foi só o impressionante Thistlegorm que encantou os amantes de naufrágios. Desde o “pequeno” Dunraven, que afundou em 1876 e ainda permite penetração com uma passagem entre duas caldeiras, até aqueles que encontraram seu destino final no recife de Sha’ab Abu Nuhas tiveram os seus atrativos. Dentre estes, o Giannis D, um dos naufrágios de que mais gostei durante a viagem, especialmente, por conta da penetração na casa de máquinas. Imponente, merecia mais de um mergulho para ser melhor explorado. Mas o Carnatic e o Chrisoula K também mostraram o seu charme. O primeiro tinha uma série de frestas recobertas de corais moles e muitos peixes vidro no interior. O segundo, com toda a sua carga de ladrilhos e azulejos, ainda permitia que os mais incautos adentrassem em sua estrutura.


A vida nos recifes era rica. Raias com pintas azuis, moreias, peixes crocodilo atiçavam nosso interesse e os peixes palhaço faziam a nossa alegria, principalmente daqueles que, como eu, gostam de filmar e tirar fotos. Peixes recifais eram abundantes e, em alguns pontos, como Shark e Yolanda no parque nacional Ras Mohammed, pudemos ver um cardume de peixes unicórnio em um dos paredões dos cânions que formavam o recife e uma enorme “bola” de jacks. Aliás, o que achei curioso deste ponto é que havia um naufrágio ao final do percurso com um carregamento de privadas que estavam espalhadas entre seus destroços.


Não vimos “vida grande” em todos os mergulhos. Peixes napoleão apareceram para nos

alegrar em The Barge e Small Giftun (uma parte do grupo também viu em Gordon Reef), tartarugas alimentaram a minha veia paparazzi em Jackson Reef e poucos foram brindados com um tubarão martelo em Thomas Reef – neste momento, eu estava tirando fotos de peixes leão que estavam dentro de uma gorgonia e perdi. Assim como perdi a raia chita que apareceu no naufrágio El Mina (o último mergulho da viagem), pois o nosso grupo de brasileiros estava tirando fotos com a bandeira da Coral de Fogo, enquanto ela se exibia para os outros três mergulhadores estrangeiros.


Não cheguei a fazer os mergulhos noturnos, exceto pelo que foi no Thistlegorm, mas a empolgação dos meus amigos com os polvos interagindo entre si em Small Giftun fez eu me arrepender um pouco desta decisão.


O auge com relação à vida marinha aconteceu em Shaab El Erg ou Casa dos Golfinhos. O nome já indicava que a presença de golfinhos era algo comum neste ponto, pois trata-se de uma espécie de estação de limpeza, em que eles se esfregam em corais e gorgonias. E eles não decepcionaram. Dois golfinhos apareceram e nadaram entre os mergulhadores. Além do nosso grupo, havia um outro barco no local e uma multidão apareceu para admirá-los. Acostumados com a presença humana, eles não se assustaram e continuaram seu processo de limpeza por alguns minutos. Quando foram embora, a multidão se dispersou e o nosso grupo permaneceu no local explorando seus encantos, com pequenos linguados, uma raia e vários cardumes de peixes recifais. Foi quando apareceram novamente para interagir conosco. Desta vez, iam e voltavam nadando ao nosso redor e, quando passavam, olhavam nos nossos olhos, uma emoção indescritível.


Embora não tenha sido a minha primeira interação com golfinhos (ela ocorreu em Revillagigedo), não deixei de ficar em êxtase. Minha fascinação por estes animais me remete à minha infância, quando queria ser um golfinho caso fosse um animal. Foi uma pena que parte do grupo não presenciou este momento mágico.

O live aboard Emperor Superior tinha cabines confortáveis e uma praça de mergulho bem estruturada, permitindo que mergulhadores alugassem cilindros extras para sidemount, maiores de 15L ou duplas – alguns amigos já fizeram viagens com mergulhos de perfil tec neste barco. A comida era variada, com cozinha internacional e local, tínhamos falafel nos cafés da manhã e pudemos experimentar carne de camelo em um dos jantares. A decoração das sobremesas era um show à parte. Tivemos aniversariantes no grupo, além da comemoração do centésimo e 400º mergulhos de duas pessoas, que foram celebrados por todos com bolos gentilmente preparados pelo chef e tripulação do barco.

Infelizmente, compromissos profissionais me impediram de viajar com a turma e fazer os passeios turísticos durante a semana anterior ao live aboard, mas não deixei passar esta oportunidade e, na semana posterior, fui conhecer as pirâmides de Gizé no Cairo e aproveitar um cruzeiro pelo rio Nilo. Visitei os templos em Luxor – onde também fiz um passeio de balão –, Edfu, Kom Ombo, Aswan e os notórios templos de Abu Simbel, esculpidos em rocha e que foram realocados para que não ficassem submersos no lago Nasser, reservatório formado após a construção da barragem de Aswan no rio.


Voltei ao Brasil encantada tanto pelas belezas submersas quanto pelas construções faraônicas em terra e, certamente, quero retornar a esta terra que deixou seu marco na história da civilização humana. Quem sabe mergulhos mais ao sul do Mar Vermelho com a vida pelágica ou no Blue Hole de Dahab farão parte de uma próxima viagem?


Embora eu já tenha feito várias viagens para mergulhar em diversos destinos, poucas vezes fui com escolas, mas esta viagem com a Coral de Fogo foi sensacional. O grupo era uma grande Família Habib e, por ser tão querida e divertida, teve gente que se deu nota dez.


* Viviane Kunisawa é advogada e mergulhadora avançada com as especialidades de Naufrágio, Deep e Drift Dive, Nitrox, sendo certificada como Self Reliant e Full Cave Diver. Apaixonou-se pelo mergulho em 2016, quando fez o curso básico e desde então, vem mergulhando em diversos destinos no país e no exterior.


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