SIDEMOUNT OU BACKMOUNT - PARTE II


SIDEMOUNT OU BACKMOUNT ?

Parte II. A escolha no MERGULHO TÉCNICO.

Sidemount é a “solução para todos os meus problemas”? É tolice minha preferir o “backmount” para diversos mergulhos?

Aqui a briga, e a discussão, ganha mais importância. Imagens da Tek Divers Miniatures.

Quando abrangi em postagem anterior a melhor opção e escolha no MERGULHO RECREATIVO, entre uma configuração sidemount ou backmount, deixei claro minha opinião sobre as diferenças, e sugeri que cada mergulhador optasse por uma outra baseado em alguns pontos, a revisar: ADAPTAÇÃO, ACESSO AOS REGULADORES, PESO e ACESSO AOS ACESSÓRIOS, considerando sempre o mergulhador RECREATIVO, com BEM MENOS compromisso com estes aspectos, ao menos bem menos quando comparado com o MERGULHO TÉCNICO. Agora nós temos outros fatores - que inclusive diferenciam o MERGULHO TÉCNICO de outros tipos de mergulho - a considerar, e as diferenças passam a ser em diversos pontos, bem acentuadas, para quem escolhe uma ou outra configuração. Claro que começar numa ou outra configuração, a lembrar, entre sidemount e backmount (plate+harness+asa+adaptador), já no mergulho recreativo e evoluir para o mergulho técnico já habituado com a que escolheu, isto quando não se domina as duas (e vou falar disso mais abaixo), facilita absolutamente a "passagem de faixa" de um para outro tipo de mergulho. E dentro do mergulho técnico, podemos considerar ainda que a diferença é BRUTAL na escolha da configuração, entre o mergulho descompressivo e o de cavernas, ambos técnicos, por se tratar de teto, o primeiro "teto fisiológico" e o segundo "teto físico". E ainda tem o mergulho em naufrágio, técnico quando fora da presença de luz natural e podendo ser, como a caverna em treinamentos futuros, com teto também fisiológico, ou seja, mergulhos descompressivos em naufrágios e cavernas. Alguns aqui vão pensar: "ué, a configuração nestes três tipos de mergulho (descompressivo, caverna, naufrágio) não é pra ser a mesma, mudando alguns acessórios?". Pois é, era... Era até 2007, quando TODO MUNDO ENTRAVA NO MERGULHO TÉCNICO COM UMA DUPLA NAS COSTAS. Aí os caras adaptaram o colete sidemount (reconstruíram pra isso, na verdade), de uma TÉCNICA ESPECÍFICA PARA EXPLORAR CAVERNAS ONDE O MERGULHADOR NÃO PASSAVA NO BURACO COM A DUPLA NAS COSTAS, para ser usado em QUALQUER MERGULHO. O mesmíssimo que no século passado, anos 90 mais fortemente, quando os caras adaptaram ASA, ARREIOS E PLATE, que era ESPECÍFICO PARA MERGULHO TÉCNICO, para ser usado no mergulho recreativo. Se o side tivesse "apenas" sido adaptado para o mergulho recreativo, um cilindro, ou até dois mesmo, como ele era usado na caverna para se "emburacar" nas explorações, essa discussão só caberia no artigo anterior, a escolha no mergulho recreativo, sem complexidades, e muita gente, e eu me incluo nessa, usando o coletinho leve de side (os modelos atuais, evoluídos em pequeno tamanho e lift), para todo lado.

Olha eu usando um cilindrinho só em San Adrés, feliz da vida com o peso da criança e meu baixíssimo esforço lombar. Foto do amigo Idomar Cerutti.

Mas não... A galera, impulsionada aqui no Brasil (e lá fora foi EXATAMENTE igual) pelos instrutores que muitas vezes representavam ou ainda representam algumas marcas de coletes de side, e até mesmo fabricam ou ajudaram nos projetos diversos, já que estes mesmos caras, na maioria das vezes muito bons instrutores de mergulho técnico, foram os primeiros a ter acesso aos coletes específicos e desenhados de verdade para sidemount, e claro, trouxeram esta "novidade que veio dar na praia". Então, no melhor estilo Steve Jobs, começaram a criar demanda para o uso daquele "pão quente". Afinal, talvez junto com o LED de qualquer lanterna usada hoje em qualquer tipo de mergulho, e a GoPro que fez nossa atividade ser muito mais vista pelos nossos amigos, o sidemount veio chacoalhar um mercado que estava paradinho faz bastante tempo. Na mesmíssima vertente dos fabricantes e seus instrutores representantes, as agências certificadoras, mais rápido que para qualquer outra especialidade de mergulho anterior, desenharam seus cursos de "recreational sidemount", "intro to tech sidemount", "technical sidemount" e talvez o único que estava mais bem preparado para ser o primeiro da fila, o "cave sidemount". E mãe, me desculpe o uso feio da palavra, cagaram na cabeça dos mergulhadores ávidos por novidades (e quem mergulha e ensina mergulho sempre serão). Tem agência que o cara faz o curso de mergulhador sidemount, faz a quantidade absurda de QUATRO mergulhos em águas abertas, e aplica (manda uma documentação específica) e no dia seguinte é Sidemount Instructor... Bem, algumas pedem na aplicação um número maior de mergulhos com a configuração, é verdade, e já vi o cara fazer isso, mergulhar um pouco mais com o side em águas abertas, e logo em seguida dar aulas pra seus alunos de mergulho em caverna ou descompressivo, todo mundo com esta configuração.

Meme que encontrei em www.scubatechphilippines.com

NÃO ERA PARA COMPARAR O BACKMOUNT COM O SIDEMOUNT ? Sim, sim. Me empolguei. Mas porque se você leu o artigo anterior, lá no final eu informei uma coisa que é uma constatação ENTRE A MAIORIA ESMAGADORA dos instrutores de mergulho, e muitíssimos de seus alunos. O backmount tem uma adaptação bem mais rápida que o sidemount. Fora que se o instrutor opta por uma filosofia de configuração backmount - qualquer que seja - a que eu acho certa ou a que eu acho errada, não importa mesmo - numa classe com por exemplo quatro alunos, todos estarão exatamente iguais. Exemplo. No meu caso, usamos na Acquanauta e na NAUITEC a configuração NTEC, que apresentarei em algum artigo futuro com detalhes, que na verdade é muito próxima da configuração conhecida como DIR, e muito próxima da atual configuração SSI XR, entre outras, onde "basicamente menos é mais". Todos os alunos estarão com uma asa entre 40 e 50 libras, sem elásticos e com uma traquéia; arreios únicos no plate, com um d'ring em cada ombro, um d'ring no lado esquerdo da cintura, uma fita entre-pernas com um d'ring traseiro; lanterna primária na mão esquerda; lanternas reservas nas tiras abaixo dos d'rings dos ombros; cilindros duplos com manifold com isolador; posto direito com uma mangueira longa e a mangueira de power, posto esquerdo com a mangueira curta da gargantilha e manômetro (e mangueira da roupa seca se este for o caso). Pronto, tenho quatro alunos, não importa se um usa Halcyon, o outro Dive Rite, o outro Scubapro, o outro Hollis. TODOS terão uma configuração altamente compatível, do ponto de vista de como as coisas vão estar "grudadas" neles. No side, se cada um destes mesmos caras, optarem pelas mesmíssimas marcas citadas aleatoriamente neste último parágrafo, para um colete de side e seus reguladores, TODOS VÃO ESTAR DIFERENTES E MERGULHAR DIFERENTE, E BRIGAR (ATÉ SE ENTENDEREM) COM A FLUTUABILIDADE, A POSIÇÃO DOS EQUIPAMENTOS (QUE INCLUEM LANTERNAS, LIFTS E/OU DECO MARKERS, OU CARRETILHAS), O TRIM E PRINCIPALMENTE, A SIMILARIDADE ENTRE OS CILINDROS E SUA POSIÇÃO ATÉ FICAREM O TEMPO TODO ALINHADOS AO TRONCO DO MERGULHADOR, DO LADO (porque a gente vê muito mais por aí cilindros bem desalinhados, ou os "frontmount" - caídos na frente do mergulhador). Isso porque a altura dos mergulhadores interfere, a posição do rig interfere, o tipo do rig interfere, o tipo e tamanho do mosquetão do rig interfere, os d'rings de cintura interferem, o elástico interfere muito, o butt plate que tem em alguns e não tem em outros interfere... e por aí vai. Uma historinha para ilustrar como é difícil ser um instrutor nesta situação (e pense como é difícil ser aluno então). Um papo num café da manhã no México, na Operadora Xibalba, em Tulum, agora em maio (2017), entre eu e o Robbie. Primeiro deixa eu apresentar o Robbie Schmittner: é o proprietário da Operadora, um dos maiores exploradores de cavernas do mundo, usuário ultra-mega-power-"móderfãqui" de side, instrutor claro, de mergulho em caverna, todas as especialidades. Eu: Robbie, cada ano que passa eu vejo aí no teu corredor de cilindros, mais de side, e menos duplas. Lembro que quando vim a primeira vez (isso foi há 8 anos) tinha a mesma quantidade, ou mesmo mais duplas que sides. Ele: Sim, é claro, aqui é o lugar do mundo para se mergulhar de side, cada vez descobrimos mais lugares onde só se chega de side. É natural que justo eu tenha mais cilindros de side que duplas. Fora o peso destas duplas...(risos). Eu: Mesmo assim, sempre terá de ter as duplas. Ele: vou te dizer algo que é muito importante, para eu ter estas duplas. Eu não dou mais nenhum curso de mergulho em cavernas com side. Pra aprender a mergulhar em cavernas, aprenda primeiro de duplas, depois aprenda a usar o side, porque é tão ou mais complexo que aprender a mergulhar em cavernas, e depois misture as duas coisas. Fiquei admirado. Justamente este cara estava dizendo algo que soa quase um impropério, quando sai da minha boca para os ouvidos de alguns amigos instrutores de caverna, e de side, claro. AS DIFERENÇAS, QUANDO UM É BOM, QUANDO O OUTRO É MELHOR Pelo que você leu até aqui, parece que está fácil "adivinhar" qual minha preferência. Mas é um engano, você vai ver. Mais engano ainda, é ter de escolher entre um ou outro. Em primeiro lugar, digo a todos que como líder de mergulho - e boa parte do que faço é um serviço de Divemaster, quando por exemplo embarco numa viagem como guia de turismo sub para meus mergulhadores, quando não há curso algum envolvido - a minha preferência atual, e cada vez mais, é por levar o meu colete e os meus reguladores configurados para SIDEMOUNT. Revisando as duas razões: 1) mais gás disponível. 2) menos peso, tanto para carregar na mala, como para aliviar minhas costas. Mas o assunto aqui é mergulho técnico. E mais uma vez, afirmo que esta é MINHA opinião. Prefiro ensinar qualquer nível de mergulho técnico, descompressivo, caverna e/ou naufrágios, com a configuração de duplas. Levo uma vantagem em relação a alguns concorrentes, e convido a todos eles a pensarem em fazer o mesmo (pois este curso existe em quase todas as credenciadoras, mas em quase todas não é obrigatório começar por ele). Na NAUITEC, sou OBRIGADO a ensinar primeiro um curso chamado INTRO TO TECH. Este curso não coloca ninguém sob nenhum tipo de teto, nem físico (sem cavernas ou penetrações em naufrágios), nem fisiológico (não se faz descompressão). Mas nele se ensina o que é FUNDAMENTAL para qualquer mergulhador técnico: uma eficiente, similar e forte configuração de equipamentos, uma consistente flutuabilidade, um sólido TRIM, e um grande "up" nas técnicas de deslocamento (pernadas de sapo e modificada, helicóptero e nado a ré). Aqui eu TENHO que ensinar e o aluno TEM que atingir um bom nível nestes 4 quesitos. E faço isso sem passar de 12 metros de profundidade, com bastante tempo para praticar e ainda na porção de água onde mais tem de se dominar a profundidade / flutuabilidade. Fora as 6 horas de água dentro da piscina, antes de levar o cara para águas abertas. Resultado prático disso: quando vou ensinar um aluno todas as amarrações de um mergulho em cavernas, ou as habilidades modificadas para este ambiente, como os protocolos de cabos, ou as saídas compartilhando gás, com e sem visibilidade, entre outras coisas. Ou a soltar um deco marker ou lift, retirar e recolocar, clipando neste meio tempo um cilindro de deco num cabo, ou trocando com o seu dupla. Eles farão isso e tão somente isto, sem se preocupar em "dominar" primeiro seu equipamento, controlar a flutuabilidade, sua natação estática e seu TRIM, já que isto foi resolvido no curso INTRO TO TECH. Outra coisa legal nisso. Posso ensinar o curso INTRO TO TECH SIDEMOUNT. Todos os fundamentos e habilidades de um mergulhador técnico, na configuração sidemount. Melhor ainda, posso pegar um aluno que é um "recreational sidemount diver", dar o curso INTRO TO TECH SIDEMOUNT, e depois sim fazê-lo seguir no mundo tech com esta configuração que ele já domina bem. E sou absolutamente contra, chego a ter dó, daquele que vai se matricular no seu primeiro curso tech, muitas vezes direto um curso para mergulhar em caverna ou fazer descompressão, e passa na loja e compra um colete de side ou um plate e asa para ir fazer isso direto. Agora vamos ver em diferentes tipos de mergulho técnico, o que é bem legal em cada configuração. O que vou recomendar aqui, é considerando que se optou pelas duplas nas costas, ou usar cilindros na lateral, você já está dominando bem seu equipamento. CONFIGURAÇÃO TECH BACKMOUNT As vantagens:

  • É mais fácil chegar a um bom balanço, basicamente é preciso ajustar bem o seu harness (arreios), para o seu tamanho exato, cortar excessos, rotear e clipar suas mangueiras de forma segura. Pronto.

  • Todos os membros do time chegarão logo, e isso não mudará durante o seu mergulho, a uma mesma configuração, com tudo claramente no seu lugar. E o que seu dupla tem numa posição, você também tem.

  • Para mergulhos diferentes - descompressivo, caverna ou naufrágio - a configuração será exatamente a mesma. Suas mangueiras não mudarão de posição, e até mesmo a troca de acessórios (por exemplo a carretilha primária do mergulho em cavernas, ou o deco marker num mergulho descompressivo), acontecerá colocando o acessório que você substitui para um diferente mergulho, provavelmente no m